Estou
estéril. Estéril de palavras e isso me faz mal. É como se não conseguisse
respirar direito, travada, muda por dentro, enjaulada junto com todos os
sentimentos que querem sair, mas não encontram uma forma de transbordarem, não
da forma pura em que se encontram lá perdidos, inertes.
Não é que não consiga reproduzi-las, mas sim
produzi-las, as palavras que preencham por completo o sentido daquilo que eu
quero expor, desses sentimentos á tanto contidos, á tanto fechados, esperando
uma brecha para fluírem feito uma correnteza a transbordar pelos lábios e
firmarem-se em palavras.
Então
me sento na poltrona da sala com paredes pintadas de branco, mas minha mente
está tão limpa quanto às paredes dessa sala, é difícil entender por que a mente
não consegue traduzir as coisas que vem do coração, nem a sensação de
felicidade ou cheiro de grama recém cortada, nem de pergaminho novo ou de pasta
de dente, perco a paciência, pois ser paciente nunca fora um das minhas
virtudes, rabisco o papel, arranco a folha do caderno gasto, jogo a fora, mas
aquela impressão de algo faltando permanece latente, incomodando – me como uma
noite de sono mal dormida.
Nada
do que eu escreva me contenta. Estou estéril. Estéril de palavras e isso me faz
mal.